sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O terceiro dia de febre é um mau dia para se ir ao médico


Ao contrário do que se tantas vezes se ensina, o 3º dia de febre é um MAU dia para se ir ao médico:
  1. Para as DOENÇAS GRAVES é TARDE demais:
    1.   67% (2/3) são internadas nas primeiras 24 horas da doença
    2.   ≈ 80% são internadas nas primeiras 48 horas da doença
  2. Para as DOENÇAS BENIGNAS e AUTOLIMITADAS (são a larga maioria das doenças febris) é CEDO demais:
    1.   > 50% duram > 72 horas (> 3 dias)
    2.   ≈ 30% duram > 120 horas (> 5 dias)
    3.   ≈ 10% duram 7 ou mais dias.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

As lombrigas intestinais dos cães e gatos e suas repercussões nas crianças, adolescentes e adultos

Os animais de companhia (cães e gatos) estão frequentemente parasitados com lombrigas (helmintas). As lombrigas intestinas destes animais não provocam infeções intestinais em humanos. Mas podem provocar doenças noutros órgãos – olhos, fígado, pele, etc.
O contacto com cães e gatos não tem qualquer risco de desencadearem infeções por lombrigas intestinais em humanos. E a medicação com os “desparasitantes” comuns, e nas doses padrão, só trata as lombrigas existentes no intestino.
Assim, justifica-se um reforço da desparasitação dos animais de companhia e não das pessoas.



Figura 1: Joanito – o nosso cão; Figura 2 : Exposição a animais de companhia


Que tipos de parasitas intestinais podem existir nas pessoas e nos animais de companhia?

Existem dois grandes grupos de parasitas: os Protozoários (são microscópicos, constituídos por uma única célula) e os helmintas (as lombrigas). Apenas abordaremos estas últimas.

A medicação padrão com os fármacos conhecidos como “desparasitantes” só trata as lombrigas, e não os protozoários.

Os diferentes tipos de lombrigas, variam, no tamanho, de poucos milímetros a 40 cm. Em regra são visíveis a olho nu. Na Tabela I estão discriminados as lombrigas que podem afetar as pessoas e/ou cães e gatos.


Tabela I: Lombrigas (helmintas) que podem existir em pessoas e/ou em cães e gatos


Humanos Cães Gatos Doenças em humanas
Enterobius vermicularis (oxiúros) Sim Não Não Afeta 10 a 20% das crianças
Áscaris lumbricoides (áscaris) Sim Não Não Atualmente raro (< 2% das crianças)
Trichuris trichiura (trichuris) Sim Não Não Não há relatos de casos em crianças há mais de 10 anos
Strongiloides stercoralis (estrongiloides) Sim Raro Não Não há relatos de casos em crianças há mais de 10 anos
Ancylostoma duodenale (ancilóstomo) Sim Não Não Não há relatos de casos em crianças há mais de 10 anos
Taenia saginata e Tania solium (ténias)Sim Não Não Não há relatos de casos em crianças há mais de 20 anos
Toxascaris leonina Não Sim Sim Não
Toxocara canis Sim* Sim Não Larva migrans cutânea, visceral e ocular. Infeta humanos após penetração pela pele; não provoca doença intestinal em humanos
Toxocara catis Sim Não Sim Larva migrans cutânea, visceral e ocular. Infeta humanos após penetração pela pele; não provoca doença intestinal em humanos.
Trichuris vulpis Não Sim Não Não
Ancylostoma caninum Raro Sim Não Não
Ancylostoma tubaeforme Não Não Sim Não
Ancylostoma braziliense Raro Sim Sim Larva migrans cutânea (Figura 3), visceral e ocular. Infeta humanos após penetração pela pele; não provoca doença intestinal em humanos
Ancylostoma ceylanicum Raro Sim Sim Não existe em Portugal
Uncinaria stenocephala Sim Sim Sim Apenas larva migrans cutânea

Aelurostrongylus abstrusus
Não Não Sim Não

Angiostrongylus vasorum
Não Sim Não Não

Capillaria aerophila
Muito raro Sim Não Não
Dipylidium caninum (ténia) Muito raro Sim Não Não


Figura 3: Larva migrans cutânea por Ancylostoma braziliense


Conclusões

As lombrigas dos animais de companhia são diferentes dos humanos.
As lombrigas intestinas dos animais não provocam lombrigas intestinais em humanos.
Justifica-se um reforço no tratamento das lombrigas intestinais nos animais e não nas pessoas.

Como tudo na vida e nas profissões … muitos não fazem o que deviam; mas outros tantos, não deviam, mas fazem.



“Dos principais deveres do médico é o de educar a população,
e não o de prescrever fármacos”.
Sir Williams Osler

terça-feira, 29 de abril de 2014

A gripe sazonal - 6ª parte: As vacinas e as medidas preventivas dos contágios

A vacinação é a medida mais eficaz na prevenção da gripe, mas tem indicações bem definidas.
As medidas comportamentais para a prevenção dos contágios, como a etiqueta da tosse e espirro, têm utilidades limitadas, mas estarão sempre indicadas.



Quais as medidas preventivas dos contágios?

A vacinação (Figuras 1 e 2) e as medidas comportamentais e de “etiqueta da tosse e do espirro” (Figura 3).
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Figura 1 e 2: Vacinação contra a gripe é a medida preventiva mais eficaz


Figura 3: “Etiqueta da tosse e espirros” e medidas comportamentais para a prevenção da gripe - embora recomendadas, são muito menos eficaz do que a vacina


Que vacinas existem contra a gripe?

Existem dois tipos de vacinas:
  1. Inativadas: com vírus mortos ou partículas dos vírus da gripe prevalentes na comunidade: H3N2, H1N1 e gripe B; de administração intramuscular; variam de ano para ano (ver 1º texto). 
  2. De vírus vivos atenuados: constituídas por vírus vivos de baixa virulência de H3N2, H1N1 e gripe B; de administração nasal; indicadas dos 3 aos 50 anos; têm maior eficácia maior que vacinas inativadas; não estão comercializadas em Portugal.


Quantas doses de vacina inativada são precisas anualmente?

A partir dos 9 anos de idade bastará uma dose de 0,5 ml.
Dos 6 meses aos 8 anos só na primeira vacinação são necessárias duas doses, administradas com intervalo de 1 mês. Dos 6 meses aos 3 anos podem-se administrar doses de 0,25 ml ou 0,5 ml; a partir dos 3 anos estão indicadas doses de 0,5 ml.


Porque é que as crianças com menos de 6 meses não devem ser vacinadas?

Pela menor eficácia da vacina e pela ausência de estudos que atestem a segurança da vacina neste grupo etário.


Em que período do ano deve ser administrada a vacina?

Antes do período habitual de epidemia, de Setembro a Dezembro. A vacina demora pelo menos 2 semanas a tornar-se eficaz. Nas crianças, na primeira vez que se faz a vacina, esta só é eficaz 2 semanas depois da 2ª dose.


Quais os efeitos indesejáveis da vacina?

Poderá provocar febre (geralmente baixa) nas primeiras 24 horas após a injeção e reações locais (dor e inchaço). Reações graves são excecionalmente raras.


Qual é eficácia da vacina?

Varia entre 60% a 90%, sendo menor nas crianças com menos de 2 anos de idade. Se os cientistas falharem na previsão das estirpes anuais, a eficácia será diminuta (Figura 4). Mas mesmo que não impeçam a gripe, as vacinas reduzem a gravidade e a taxa de complicações.


Figura 4: A previsão anual da vacina pode falhar


Quem deverá ser vacinado anualmente?

  1. Indivíduos dos “Grupos de Risco” (ver 4º texto), exceto crianças com menos de 6 meses de idade;
  2. A vacinação das grávidas com parto previsível na época epidémica, conferirá alguma proteção ao futuro lactente (Figura 6).
  3. Profissionais que tenham contacto íntimo com indivíduos dos “grupos de risco”:
    1. Profissionais de saúde
    2. Profissionais das instituições
  4. Familiares (crianças e adultos) de indivíduos dos “Grupos de Risco”


Figuras 5 e 6: A vacinação anual é a medida mais eficaz na prevenção da gripe


Quais são as contraindicações à vacina?

A alergia grave ao ovo ou a outros componentes da vacina. As reações apenas no local da injeção não são contraindicações.


Que medidas devem adotar os doentes com gripe para minimizar os contágios?

  1. Preferivelmente ficar em casa
  2. Se internados, deverão ficar isolados ou confinados a divisões com outros doentes com gripe, durante 5 a 7 dias (ou mais nas crianças)
  3. Evitar o contacto com outras pessoas
  4. Evitar locais com aglomerações de pessoas: urgências hospitalares, transportes públicos, etc.
  5. Realizar uma adequada “etiqueta da tosse e dos espirros”:
    1. Não tossir para as mãos
    2. Tapar o nariz e a boca com lenços (melhor de papel), depois rejeitados para recipientes fechados
    3. Alternativa: tossir para a região do cotovelo (manga da camisola ou pele)
  6. Lavar frequentemente as mãos: após os acessos de tosse / espirros; antes de tocar em objetos que possam ser partilhados, etc.
  7. Evitar manusear objetos de uso comum.
  8. Usar máscara em ambientes públicos; eventualmente também em casa.


Quais as medidas recomendadas para a população em geral para a minimização dos contágios?

  1. Evitar o contacto próximo com doentes
  2. Lavagem frequente das mãos após a manipulação de superfícies potencialmente contaminadas, após cumprimento; após chegar a casa, antes de manipular alimentos, etc. (Figura 7)
  3. Desinfeção ou lavagem frequente de objetos / superfícies de uso comum
  4. Substituição regular dos objetos potencialmente contaminados
  5. Uso de material descartável na limpeza dos objetos, superfícies e secreções.


Figura 7: A lavagem das mãos é das medidas mais importantes nos períodos de epidemia da gripe ou de outras infeções respiratórias


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A gripe sazonal - 5ª parte: Diagnóstico, tratamentos e os sinais de gravidade

O diagnóstico da gripe é baseado exclusivamente em dados clínicos, reservando-se os exames laboratoriais para os casos graves ou complicados.
A larga maioria doentes pouco ou nada beneficia em recorrerem aos serviços de urgência e/ou ao médico assistente, pois a gripe não tem tratamento específico.
Apenas se recomendam fármacos para alívio da febre e das dores. Os antibióticos só se justificam se surgirem complicações.



O diagnóstico de gripe:

Em regra o diagnóstico de “gripe” é baseado exclusivamente em dados clínicos (Quadro I).

Quadro I: Clínica típica da gripe em adultos (na criança – ver texto 3)
  • Febre > 39ºC
  • Calafrios (= arrepios, tremores generalizados com tiritar dos dentes)
  • Tosse perturbadora (inicialmente seca)
  • Dores de cabeça (cefaleias)
  • Dores garganta (faringite)
  • Dores musculares (mialgias)

Este quadro clínico durante uma epidemia reconhecida de gripe, terá uma probabilidade de 80% de ser efetivamente gripe (os restantes 20% dizem respeito a outros vírus respiratórios).

Nas crianças com gripe, os calafrios e as mialgias são muito menos frequentes do que nos adultos. Daí que a sua presença em crianças seja atípico, sugerindo antes uma complicação.

As análises laboratoriais inespecíficas não ajudam a distinguir a gripe dos diferentes vírus respiratórios.
O diagnóstico de certeza, reservado para situações excecionais, faz-se pela identificação do vírus da gripe nas secreções respiratórias (métodos rápidos) ou por doseamento de anticorpos no sangue (métodos morosos).

Qual é o tratamento da gripe?

A gripe não tem tratamento específico: apenas estão indicados analgésicos/antipiréticos - paracetamol, ibuprofeno - para alívio da febre e das dores. Nas crianças deve evitar-se a aspirina (ácido acetilsalicílico) e os seus derivados pelo risco de poderem desenvolver síndrome de Reye.
São de utilidade controversa os fármacos para a tosse, estando contraindicados os antitússicos antes dos 2 anos de idade.

Existem gripes “mal tratadas” ou “mal curadas”?

Não. Estas expressões de uso comum são incorretas. As gripes não se tratam: evoluem espontaneamente.

Mas não existem tratamentos antigripais específicos?

Sim, existem 4 fármacos - oseltamivir, zanamivir, amantadina e rimantadina - que estão indicados apenas nas gripes sazonais graves e nas gripes pandémicas.
Não são antibióticos. Apenas reduzem a gravidade e a duração da gripe, e somente quando iniciados nas primeiras 48 horas de doença. E não evitam a maioria das complicações. Mesmo nos indivíduos pertencentes aos “Grupos de Risco”, raramente estão indicados.

E os antibióticos?

Nos surtos de gripe assiste-se ao aumento de 10% a 30% na prescrição de antibióticos, maioritariamente de forma inapropriada.
Os antibióticos não têm qualquer utilidade nas infeções provocadas por vírus, nem previnem as complicações bacterianas referidas no 4º texto. Mas justificar-se-ão antibióticos se estas, entretanto, ocorrerem.

Que “Sinais de Alerta” clínicos devem sugerir a probabilidade de complicações no decurso da gripe?

No Quadro III estão descriminadas as manifestações clínicas que devem sugerir potencial complicação da gripe e da necessidade de observação médica urgente.


Quadro III: “Sinais de Alerta” que justificam consulta urgente no decurso da gripe (e doutra infeção respiratória semelhante à gripe)

  • Febre (ver Figura 1):
    • Superior a 40ºC axilar (> 41ºC auricular ou rectal)
    • Duração superior a 5 a 6 dias sem melhoria
    • Ressurge após 1 a 2 dias sem febre
    • Agravamento da febre quando parecia que ia melhorar
    • Em idade pediátrica, também quando:
      • associada a calafrios prolongados e/ou
      • ficar com os lábios e/ou os dedos roxos.
  • Presença de sinais de dificuldade respiratória: aumento da frequência respiratória (Tabela I), “canseira” a respirar, esforço ou “opressão” para respirar, “falta de ar”, gemido frequente com respiração entrecortada com…hhhann…hhhann …hhhann…, tiragem (retração da pele entre as costelas) (Figura 2).
  • Prostração – “é, estando acordado, comportar-se na alma e no corpo como se estivesse a dormir”
  • Alteração do estado de consciência (sonolência excessiva)
  • Convulsões
  • Vómitos repetidos (> 4-5 em poucas horas, fora das refeições)
  • Frequência cardíaca aumentada ou arritmias
  • Canseira excessiva
  • Dor torácica ou abdominal persistente
  • Dor muscular intensa para pequenos esforços (por miosite aguda, que é muito dolorosa)
  • Incapacidade para comer e/ ou recusa completa dos alimentos (em > 2 refeições)

Figura 1: Características da febre que devem sugerir infeção bacteriana secundária e outros sinais sugestivos de complicação no decurso da gripe.

Figura 2: Tiragem entre as costelas (retração - seta) que é sempre sinal de esforço respiratório


O que é a frequência respiratória (FR) e qual o seu interesse?

A FR é o número de ciclos respiratórios (a inspiração mais a expiração) num minuto. Determina-se pelo número de inspirações durante um minuto (contar durante 15 segundos e multiplicar por 4). Deve ser avaliada numa fase sem febre ou com febre baixa e, preferivelmente, com o doente a dormir.
Na criança, a FR é um excelente indicador da presença ou não de complicações respiratórias: FR aumentada, podem existir; FR normal, será improvável.



Tabela I: Frequência respiratória (nº de inspirações por minuto) normal e na doença respiratória (a dormir)

Idades
“Normal”
Duvidosa
Aumentada
< 12 meses
< 40
40-60
> 60
1-3 anos
< 30
30-45
> 45
3 - 8 anos
< 25
25-35
> 35


Nas crianças:
O aumento da frequência respiratória é sempre o primeiro sinal de dificuldade respiratória.
Uma frequência respiratória normal torna muito improvável existir uma complicação pulmonar ou das vias aéreas.


Nas epidemias da gripe, é comum serem emanadas recomendações da Direção Geral de Saúde (DGS) desaconselhando os doentes de recorrerem aos serviços urgência. Porquê?

Uma vez que a gripe não complicada não tem tratamento específico, nem precisa de exames complementares nem de antibióticos, a larga maioria dos doentes pouco ou nada beneficia em recorrer aos serviços de saúde.
Muitos serão medicados desnecessariamente com antibióticos. Por outro lado, na mesma altura circulam na população vários tipos de infeções respiratórias. Assim, arriscam-se a contraírem aí uma segunda e uma terceira infeção num curto espaço de tempo.


Próximo texto: Gripe sazonal – 6ª parte: As vacinas e as medidas preventivas dos contágios.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A gripe sazonal - 4ª parte: Potenciais complicações e os “Grupos de Risco”

Geralmente a gripe é uma doença relativamente benigna. Contudo, não são raras as suas complicações, algumas podendo colocar a vida em risco. Estas podem ocorrer em qualquer indivíduo, sendo mais comuns nos indivíduos dos “Grupos de Risco”.
O conhecimento das potenciais complicações e dos “Grupos de Risco” são importantes para a adoção das medidas preventivas e de vigilância.



A gripe é perigosa?

Não para a larga maioria das pessoas. Nalgumas, a gripe poderá cursar com complicações de gravidade variável.

  • A gripe e as suas complicações são responsáveis por ≈ 20% das hospitalizações nos meses de inverno, maioritariamente com pneumonias bacterianas.
  • O risco de morte pela gripe, em si e/ou pelas suas complicações, ronda os 4 por 100.000 casos.


Quais são as potenciais complicações da gripe?

São variadas as potenciais complicações da gripe. As mais frequentes estão descriminadas no Quadro I e na Figura 1, várias exigindo hospitalização.

Quadro I: Potenciais complicações da própria gripe (primárias) ou secundárias
  • Pneumonia primária da gripe
  • Infeções bacterianas secundárias:
    • Pneumonia secundária – por Streptococcus pneumoniae, ou Staphylococcus aureus, etc.
    • Laringotraqueobronquite / traqueíte bacteriana
    • Otite média aguda
    • Sinusite aguda
  • Desencadear crises graves de asma
  • Encefalite / encefalopatia
  • Miocardite e/ou pericardite
  • Miosite aguda = inflamação aguda dos músculos
  • Convulsão febril
  • Morte súbita inexplicável

Figura 1 - Potenciais complicações da gripe

Como é que a gripe pode levar à morte?

À exceção da otite média aguda, da sinusite aguda, da miosite aguda e da convulsão febril, todas as restantes complicações descritas no Quadro I poderão complicar-se de morte, pelas razões explicadas no Quadro II.

Quadro II: Mecanismos patológicos que podem levar à morte no decurso da gripe
  1. Insuficiência respiratória grave com dispneia (falta de ar): pneumonias, traqueíte, laringotraqueobronquite, asma grave. 
  2. Coma (encefalite); 
  3. Insuficiência cardíaca ou alteração do ritmo cardíaco. 
  4. Morte súbita idiopática

Muitas das mortes que ocorrem no decurso da gripe ficam sem explicação: são as mortes súbitas idiopáticas.
Felizmente, a morte é rara no decurso da gripe, exceto nos idosos muito debilitados e/ou em indivíduos com doenças crónicas debilitantes.


Essas complicações só surgem nos “Grupos de Risco”?

Não. São frequentes nos “Grupos de Risco”, mas também ocorrem em indivíduos não considerados de risco.

Quais são os indivíduos considerados “Grupos de Risco”?

No Quadro II são descriminados os indivíduos que têm risco acrescido de sofrer complicações no decorrer da gripe. Estes indivíduos justificam medidas preventivas reforçadas e uma maior vigilância clínica (Figuras 2 a 5).

Figura 2 e 3: Os idosos, as crianças com menos de 6 meses de idade e as grávidas, pertencem aos  “Grupos de Risco” de desenvolverem complicações no decurso da gripe.


Figuras 4 e 5: Os asmáticos e os obesos mórbidos também estão incluídos nos “Grupos de Risco”



Quadro III: “Grupos de Risco” – indivíduos com maior probabilidade de sofrerem complicações no decurso da gripe
  • Idade > 65 anos
  • Indivíduos residentes em instituições
  • Indivíduos sob internamento prolongado na época da gripe
  • Grávidas
  • Portadores de doenças crónicas:
    • Cardiovasculares – com compromisso da função cardíaca;
    • Défices de imunidade – SIDA, imunodeficiências primárias, imunossupressão medicamentosa, Endócrinas – diabetes mellitus, etc. Hematológicas – drepanocitose, outras hemoglobinopatias, etc.
    • Neurológicas – sobretudo se compromisso neuromuscular;
    • Obesidade mórbida (“doentia”, excessiva)
    • Pulmonares – asma brônquica, fibrose quística, doença pulmonar crónica, etc.
    • Renais – síndroma nefrótico, insuficiência renal crónica, etc.
    • Reumatológicas – lúpus eritematoso sistémico, dermatomiosite, esclerodermia, etc., em especial os doentes medicados com fármacos que diminuem as defesas (imunossupressores)
  • Doentes transplantados
  • Outras doenças crónicas debilitantes, em especial sob terapêuticas prolongadas com fármacos que diminuem as defesas naturais (imunossupressores).
  • Medicação prolongada com ácido acetilsalicílico (aspirina) ou derivados, em doses anti-inflamatórias – por exemplo na febre reumática.
  • Crianças com idade inferior a 6 meses*.
* As crianças com menos de 2 anos têm uma maior taxa de complicações comparativamente à população em geral. Mas tradicionalmente não são incluídos nos “grupos de risco”.

Se os indivíduos dos “Grupos de Risco” contraírem gripe, devem procurar assistência médica?

Sim, mas a orientação vai depender da gravidade e duração das manifestações clínicas.

Qual o prognóstico a longo prazo da gripe?

Em regra é excelente. É variável nos casos complicados de pneumonia, encefalite ou miocardite, decorrente de terem ficado ou não complicações definitivas (sequelas).


Próximo texto: Gripe sazonal – 5ª parte: Diagnóstico, tratamentos e sinais de gravidade.


sábado, 18 de janeiro de 2014

A gripe sazonal - 3ª parte: Manifestações clínicas e sua duração

Dominam a clínica da gripe: tosse seca, obstrução nasal, dores de garganta, cefaleias, dores musculares e a febre com calafrios. Nas crianças mais jovens são comuns os vómitos e a diarreia.
A febre dura até 5 dias, podendo prolongar-se mais de 7 em especial nos casos com febre a dois tempos (intervalo livre de 1 a 2 dias).
A tosse geralmente prolonga-se para além das 3 semanas.



Toda a gente exposta aos vírus da gripe adoece?

Não. Os que já tiveram contactos com os vírus da gripe semelhantes (ou foram adequadamente vacinados) adquiriram imunidade total ou parcial, estes manifestando apenas sinais de constipação e tosse ligeira com ou sem febre.

Quanto tempo decorre entre o contágio e o início dos sintomas da gripe?

Esse período denomina-se período de incubação, que no caso do vírus da gripe, dura em média 2 dias, com extremos de 1 a 4 dias (figura 1).
O período de incubação é variável de vírus para vírus, sendo muito curto na gripe.


Como é que os vírus invadem o organismo?

A gripe é essencialmente uma infeção das células das mucosas do aparelho respiratório. Ao atingirem a boca, o nariz, as conjuntivas ou os brônquios, o vírus influenza penetra e multiplica-se (replica-se) nas mucosas, onde provocam a destruição (necrose) das respetivas células, que coincide com o início dos sintomas.
Muitos vírus atingem a corrente sanguínea, provocando manifestações clínicas não respiratórias (figura 2).


Quais os sinais e sintomas mais comuns na gripe?

A gripe manifesta-se subitamente com febre elevada (geralmente > 39ºC axilar), calafrios (tremores generalizados), mal-estar geral, fadiga, perda de apetite, tosse, dores de garganta (associado a vermelhidão da faringe), dores de cabeça, dores musculares (mialgias).
A tosse é seca, frequente e incomodativa nos primeiros dias da doença, surgindo depois a expectoração.
Nas crianças é comum ocorrer também “tosse de cão” (tosse rouca ou cruposa), conjuntivite, dores abdominais, vómitos e a diarreia e, por vezes, convulsões febris (figura 3).


Quais são as manifestações menos comuns na gripe?

Excecionalmente podem ocorrer sintomas próprios do envolvimento do coração (com arritmias, etc. por miocardite) e do cérebro (diminuição da consciência, convulsões) por encefalite.
Nalgumas crianças surgem manchas vermelhas no corpo (exantema) que se iniciam depois do 3º dia de febre. Outras, já na fase de recuperação da gripe, surgem com dores musculares muito intensas que as impedem de caminhar (por miosite aguda), que duram 3 a 5 dias (mais pelo vírus influenza do tipo B).


Como se distingue clinicamente a gripe dos vulgares “resfriados”

Os “resfriados”, designados pelos médicos como rinofaringites ou “catarros respiratórios superiores, são provocados pelos vírus sincicial respiratório (VSR), rinovírus, vírus parainfluenza e adenovírus.
Estes vírus também causam epidemias ─ envolvendo crianças, adolescente e adultos ─ com clínicas muito semelhantes à da gripe (ver 1º texto).
Embora clinicamente seja frequente serem indistinguíveis, algumas diferenças clínicas poderão ajudar a diferenciá-las (Tabela I).

Tabela I: Diferenças clínicas entre a gripe e os “resfriados”
Clínica
Gripe
Rinofaringite
Início
Súbito
Gradual / Insidioso
Febre elevada (> 39ºC)
++++
++ / + / -
Coriza (“constipação”)
++
++++
Tosse
++++
++
Dores cabeça (cefaleias)
++++
++ / +
Dores de garganta
++
+++
Faringe vermelha
++
++
Dores musculares (mialgias)
+++
+ / -
Cansaço muscular
+++
+ / -
- pode faltar; + - por vezes; ++ frequente; +++ muito frequente; ++++ característico


Quanto tempo dura a febre na gripe não complicada?

A febre tem uma duração variável, sendo comum durar 5 a 7 dias. Mas pode ter uma evolução a dois tempos: febre durante 3 a 5 dias; apirexia 1 a 2 dias; febre novamente durante mais 2 a 3 dias. Daí que seja frequente a febre durar mais de 7 dias.
Contudo, esta evolução a dois tempos deve contudo sugerir a eventualidade duma complicação, sobretudo a pneumonia bacteriana, mas também a otite média aguda e a sinusite


Quantos semanas dura a tosse na gripe?

Nos primeiros 4 a 7 dias de doença, a tosse é seca e irritativa, tornando-se depois produtiva (com secreções) durante mais 1 a 2 semanas.
Na gripe, a recuperação completa da mucosa respiratória demora 15 ou mais dias após o início da infeção.
Isto justifica que mais de 10% das crianças terão tosse para além de 4 semanas. Mas a tosse intensificar-se-á e/ou prolongar-se-á ainda mais se, entretanto, a criança contrair uma nova infeção virusal respiratória (“um novo resfriado”, “mais uma virose”), como tantas vezes acontece nas creches, nos jardins de infância e nas escolas.


Próximo texto: Gripe sazonal – 4ª parte: Potenciais complicações da gripe e os grupos de risco


sábado, 7 de dezembro de 2013

A gripe sazonal - 2ª parte: Formas de contágio

A gripe é muito contagiosa através das gotículas respiratórias eliminadas pela tosse e espirros ou pelo contacto das mãos com as superfícies e os objectos contaminados com as secreções dos doentes (as fomites).
Nos meses frios, o clima frio e seco potencia a propagação dos vírus da gripe, ao prolongar a sua sobrevivência nas superfícies e objectos contaminados. A aglomeração de pessoas, em espaços confinados, favorece os contágios.



Porque é que a gripe é muita contagiosa?

Pela grande facilidade e rapidez com que os vírus se transmitem de pessoa para pessoa, através das gotículas respiratórias eliminadas pelos doentes ou pelas fomites criadas por estes. Basta uma dezena de vírus para provocar doença.
O contágio é muito facilitado pela aglomeração de pessoas: infantários, escolas, transportes públicos (figuras 1 e 2), cafés, espetáculos, salas de espera dos hospitais, etc.
Figuras 1 e 2 - Transporte publico

Qual é a percentagem de indivíduos que adoecem anualmente com gripe?

Entre 10 a 20% da população mundial: ≈10% adultos; ≈30% das crianças; mais de 50% das crianças nos primeiros 2 anos de vida.
Os indivíduos que tiveram contactos prévios com vírus influenza semelhantes (sobretudo adultos), adquiriram imunidade total ou parcial. Outros estão vacinados ou não se expõem a contágios (isolamento social).

Como é feito o contágio do vírus da gripe?

A transmissão de pessoa a pessoa, faz-se através de 4 formas:
  1. Contacto direto com um doente, em regra resultando na contaminação das mãos, alimentos ou objetos (figuras 3 e 4); 
  2. Emissão de grandes e médias gotículas (respetivamente >100 micras (µm) e > 5 µm < 100 µm) expelidas pela tosse e espirros, que atingem as mucosas dos novos doentes (a menos de 1,5 metros de distância) ou conspurcam alimentos ou objetos que o novo doente vai utilizar (figura 5 e 6); 
  3. Emissão de “aerossóis” (gotículas < 5 micras), que atingem as mucosas respiratórias e os pequenos brônquios dos novos doentes (figura 5 e 6); estas depositam os vírus diretamente nos brônquios;
  4. Através das superfícies e objetos contaminados (fomites) (figuras 1,2,7)
Figura 3 - Contacto directo com doente; Figura 4 - Contágio através das mãos (criando depois fomites)

Figura 5 - Produção das gotículas respiratórias (infetadas ou não); μm = micras

Figura 6 - Esquema da inalação de vírus por contágio inter-pessoal

O que são fomites?

São as inúmeras superfícies e os objetos contaminados com agentes infeciosos capazes de causar doenças. São exemplos: portas, manípulos das portas, pegas de sustentação dos transportes públicos (figuras 1 e 7), telefones, brinquedos dos jardins-de-infância e das salas de espera dos consultórios, mesas de cafés, mochilas e outros objetos dos alunos (figura 2), utensílios dos médicos (figura 7), mãos de cada um de nós (figura 4), etc.
Os vírus da gripe sobrevivem durante várias horas nas fomites.
Figura 7: Os objetos médicos não desinfetados são fomites

Quem gera as fomites?

Os doentes sintomáticos (desde a véspera do início dos sintomas), os doentes pouco sintomáticos que se misturam com a população saudável. Os prestadores de cuidados aos doentes (incluído os profissionais de saúde) que não têm os cuidados adequados na manipulação das fomites entretanto criadas.

Figura 8: Doentes pouco sintomáticos (misturam-se com a população) criando fomites

As crianças têm menos cuidados na prevenção dos contágios, pelo que a produção de fomites e a consequente transmissão de agentes infeciosos está mais facilitada, seja na sala de aulas (figura 9) seja nos transportes públicos (figura 2).
A eventual utilização do mesmo lenço para assoar várias crianças potencia, em muito, os contágios.
Figura 9: As crianças transmitem doenças às outras pelas gotículas respiratórias e pela constante criação de fomites

Nas epidemias de gripe, onde ocorre mais a transmissão dos vírus?

Nos estabelecimentos com crianças (creches, jardins de infância, escolas) ou com indivíduos institucionalizados, a tempo completo ou parcial (velhos em lares, doentes hospitalizados). E dentro de casa (figura 10).
Figura 10: Mais de 60% dos familiares pode adoecer quando uma criança adoece com gripe

Quanto tempo dura os surtos de gripe?

Entre 4 a 10 semanas. O pico da epidemia nas crianças precede de vários dias o da comunidade em geral.

Quanto tempo dura o contágio individual?

A eliminação dos vírus da gripe, nas secreções nasais, inicia-se um dia antes de os doentes manifestarem sintomas, tem o pico nos 3 primeiros dias de doença, e cessa dentro de 5 a 7 dias nos adultos, prolongando-se por 7 a 10 dias nas crianças em geral, durando até 13 dias nos lactentes (Figura 11).

A gripe só ocorre nos meses de inverno?

Pode ocorrer em qualquer época do ano, sendo mais comum entre dezembro e fevereiro.
Nos anos em que circulam 2 a 3 estirpes de vírus, poderá ocorrer um período de epidemia mais prolongado (> 3 meses) e/ou ocorrência de dois picos. Nos países quentes é frequente ocorrerem 2 picos, um na época das chuvas.

Razões da maior ocorrência da gripe nos meses de inverno

O clima frio e seco potencia a propagação da gripe por duas razões:
  1. Prolonga a sobrevivência dos vírus da gripe nas superfícies e objetos contaminados e, consequentemente, aumenta a duração dos contágios; 
  2. Gera a permanência de maior número de pessoas durante mais horas em espaços confinados.


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